Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Uma fascinante ideia de composição e improvisação

   Fotos: cortesia Casa da Música e © João Messias
                                                                                      
                                                                              
Embora a situação não possa comparar-se à que se vivia no meu tempo –  havendo hoje múltiplos concertos e festivais de jazz a realizarem-se um pouco por todo o país, muitos dos músicos mais importantes em várias correntes do jazz actual a visitarem-nos e, apesar de tudo, uma oferta discográfica que  (embora tenha já conhecido melhores dias)  pode considerar-se representativa do que hoje se faz neste domínio musical  –, é possível ainda encontrarem-se pessoas que, afastadas por inércia do conhecimento ou da fruição empenhada do jazz, continuam a considerá-lo uma música incompreensível, em que «cada um toca para seu lado».
 
Lembrei-me disto ao ouvir os primeiros momentos do prometedor concerto realizado por Anthony Braxton com o seu sexteto, na passada segunda-feira 28, na Casa da Música (Porto), e ao confrontar-me com a situação de não ter sido considerada plausível ou oportuna a distribuição de uma simples folha de sala que pudesse dar algumas pistas de audição aos muitos espectadores que quase encheram o auditório principal e que só um optimismo pouco realista poderia levar a supor estarem inteiramente sintonizados com o que iriam ouvir. Uma lacuna tanto mais notada quanto se adivinhava, nesse concerto que acabara de começar, a proposta de uma música complexa, face à qual apreciações apressadas poderiam conduzir à repetição  (ou simples intuição)  daquela infeliz frase que, de forma anedótica e simbólica, atrás reproduzi.
 
E o certo é que haveria muito que dizer e prevenir acerca da estratégia de composição e improvisação que se viveu naquele concerto, no qual mais uma vez foram postos em prática os pressupostos teóricos que Anthony Braxton faz reviver na sucessão e gestão de eventos musicais que, sob o seu conceito Ghost Trance Music, nos propõe  (e aos companheiros de aventura)  durante o longo tempo de duração de uma única «peça», tempo aliás meticulosamente medido pela generosa ampulheta que o mestre coloca, bem visível, à frente de todos.
 
Em termos claros, ao abordar os meandros deste conceito de criação musical, é de um estádio de intensa partilha artística e intercâmbio democrático que idealmente se deve falar. Após a apresentação de um primeiro statement temático por iniciativa de Anthony Braxton, aquilo a que depois se assiste é a uma sucessão e encadeado de tomadas de decisão que podem partir não tanto da iniciativa do próprio Braxton mas por este deixadas ao livre arbítrio de cada um dos músicos envolvidos no septeto.
 
É então que um dado músico, geralmente mobilizando duos ou no máximo trios, usa de uma sinalética ou de mnemónicas antecipadamente combinadas –  este ou aquele gesto, a indicação com os dedos de um determinado número ou a anotação em pequenos quadros de letras e outros sinais indicativos  – para iniciar a inserção, na música que está a ser produzida, de uma outra ideia musical, por mais breve que seja.
                                    
Estas iniciativas assentam num trânsito constante pelas várias composições de Braxton que estão sobre as estantes ou depositadas «em carteira», umas de maior duração e outras expressas em pequeníssimas frases ou meros apontamentos temáticos que servem de ligação.
 
É aqui que tudo pode tornar-se  (ou não)  interessante e mobilizador e é isto que é estimulado pelo próprio Braxton nos seus pares, indo ao ponto de os desafiar a introduzir «estratégias secretas» não previstas antecipadamente, assim se criando derivações na criação musical instantânea que se está a viver. É a sucessão destas propostas ou são os cortes bruscos nestes desvios  (pelo desenvolvimento de uma lógica interna, no primeiro caso, ou pela sua denegação e antítese, no segundo caso), que podem  (ou não)  vingar, em termos de adopção, por parte dos restantes músicos.
 
Como se compreenderá, para além da sempre intrigante dramaturgia da comunicação gestual e musical, é a elevada imprevisibilidade na conjugação espontânea destas composições prévias e as dezenas de formas possíveis para encaixá-las neste ambicioso puzzle que são susceptíveis de tornar este obsessivo «caos organizado» num objecto artístico suficientemente consistente na sua permanente volatilidade ou penosamente frágil na episódica condução a becos sem saída.
 
Nesta vertente prioritária do conceito Ghost Trance Music –  a da composição e suas várias formas de dispersão e subversão  –, não apenas o próprio Anthony Braxton se revelou soberano, como seria natural, nas opções que propôs. Também o contrabaixista Chris Dahlgren (na foto) e, sobretudo, o trompetista Taylor Ho Bynum, se mostraram felizes na sugestão de momentos de diversificação numa performance musical que, pelo contrário, acabaria por pautar-se em geral por uma desarmante uniformidade.
 
Entretanto, também na segunda vertente –  a da improvisação individual ou colectiva que funcionam como veredas e atalhos, mais ou menos longos, na passagem de uma composição para outra  –, a noite não foi propriamente das mais entusiasmantes.
 
É certo que as impetuosas irrupções de Braxton nos saxofones soprano e sopranino  (já que o alto padeceu de uma captação deficiente)  foram correspondidas, à altura, pelos momentos de ataque conjunto, em clusters de configuração e desenvolvimento aleatório, bem impulsionados pela bateria de Aaron Siegel. Mas outras intervenções solísticas, pela sua insipiência, estiveram aquém do que seria desejável, em particular as de Jessica Pavone  (violino, viola)  ou Mary Halvorson  (guitarra).  Mesmo a tuba de Jay Rozen raramente ultrapassou a passividade de um suporte tímbrico pouco ágil e pouco movimentado. Teríamos, então, de esperar  (mais uma vez)  pelas «sacudidelas» de um Dahlgren ou de um Bynum, este explorando bem a diversidade tímbrica dos vários trompetes e cornetas, para romper a espaços com uma certa monotonia instalada em palco.
 
Neste sentido, o concerto pelo septeto de Anthony Braxton, agora realizado na Casa da Música, esteve algo distante da impressionante noite vivida em 2006 no Jazz em Agosto desse ano, na qual a incontrolável dose de risco inerente a este processo criativo conduziu então aos melhores resultados. O que só poderá constituir surpresa para quem invariavelmente acredita na infalibilidade dos seus ídolos ou jamais viveu as inexplicáveis venturas e desventuras de todo o jazz, enquanto música criada no momento.
                    

Septeto de Anthony Braxton
Casa da Música - Ciclo de Jazz 2008
Segunda-feira 28, 22:00, Sala Suggia
                                                                                     
Anthony Braxton (saxofones)
Taylor Ho Bynum (trompetes, corneta)
Jay Rozen (tuba)
Chris Dahlgren (contrabaixo)
Jessica Pavone (violino, viola)
Mary Halvorson (guitarra)
Aaron Siegel (bateria)


Nota de MJV - como quase sempre acontece na Internet, a compressão (não controlável) a que são sujeitas as fotos para publicação online pode ser de tal maneira radical que existe o risco de degradar a qualidade dos originais. Foi o que em parte aconteceu (e se lamenta) com as excelentes fotos gentilmente cedidas pelo fotógrafo João Messias.
                                                                                                                   


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 16:59
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Domingo, 27 de Janeiro de 2008

Ante-estreia (4) - Demian Cabaud

 

Naranja

(Tone of a Pitch / Dargil)

1. Musica para Cordon 2; 2. Grounding;

3. Evanescente; 4. Naranja; 5. Olha;

6. Curioso; 7. The Painter

 

Quinteto de Demian Cabaud

Demian Cabaud (contrabaixo); Ohad Talmor (sax-tenor); Phil Grenadier (trompete); Leo Genovese (piano); Gerald Cleaver (bateria)

 

Gravação: Maggie' s Farm

3 de Novembro de 2006

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Diz-me com quem andas…
 
Vão-se sucedendo um pouco por todo o mundo –  até em virtude dos laços de estreita colaboração e amizade entre músicos de nacionalidades diferentes que viram os seus caminhos cruzar-se  – obras discográficas que, mesmo sendo muito diferentes entre si, apresentam como traço comum uma vontade de rebeldia, mais ou menos acentuada ou perceptível, em relação a um statu quo há muito instalado que insiste na constante reprodução de um discurso musical estreito e único na área do jazz.
 
É certo que algumas dessas obras não escondem certas fragilidades ou inconsequências. Mas soam muitas vezes bem mais prometedoras do que tantas outras que se comprazem em apenas apresentar receitas de êxito seguro, porque incapazes de arriscar para além do que é mais familiar e consensual.
 
Pois hoje é com gosto que vos falo de Naranja, o álbum do contrabaixista argentino Demian Cabaud que está prestes a chegar às lojas (porventura nesta semana que entra) e que conta com a prestigiada colaboração de músicos de primeiríssimo plano, como o saxofonista francês Ohad Talmor, do trompetista Phil Grenadier e do baterista Gerald Cleaver  (ambos norte-americanos)  e ainda do pianista  (também argentino)  Leo Genovese, um disco agora editado pela independente portuguesa Tone of a Pitch. Veja-se, só, esta tão diversa e conjugada confluência de vontades!
 
Tratando-se, embora, do primeiro álbum liderado por Demian Cabaud editado em Portugal –  ele que aqui está radicado desde 2004, fazendo já parte integrante e activa da cena do jazz português  –, o facto é que Naranja não só se me afigura um disco em geral imune às ditas fragilidades, assim surgindo bem consequente nos seus propósitos, como ainda escolhe o caminho menos fácil para enfrentar o «mercado», apostando num discurso musical exigente e polivalente, que recusa caminhos fáceis e seguros de emissão e recepção.
 
Do ponto de vista temático, seria possível esperar-se  (dadas as origens de Cabaud) a assumpção de alguns traços identitários da sua própria cultura. Interessante é constatar, entretanto, que o contrabaixista-compositor recusa de uma forma natural  (nesta obra discográfica em concreto)  a evidência desse tipo de matriz cultural e embora por vezes pareçam ecoar em certas peças alguns traços implícitos de uma espécie de habanera  (Naranja)  ou de um bolero  (Curioso), aquilo que poderia tornar-se um lugar comum deixa imediatamente de o ser, já que uma tal via de facilidade é claramente contrariada. Sendo isto também verdade, por exemplo, para o lado só moderadamente evocativo de Musica para Cordon 2.
 
A já referida peça Curioso é, aliás, paradigmática dos pressupostos de composição e improvisação subjacentes a este CD de Demian Cabaud. O que nos é dado ouvir é uma interessantíssima justaposição  (como que em camadas de sinal contrário)  de eventos musicais que se entrelaçam ou se repelem. Ao escutarmos a forma dialéctica pela qual a exposição do tema desta peça ou a improvisação de sax-tenor contrastam claramente com o acompanhamento subterrâneo e «tresmalhado» da secção rítmica;  ou ao descobrirmos a «divergência» entre o solo livre e fragmentado do piano e a afirmação insistente, explícita e simultânea das notas do tema por parte do sax-tenor e do trompete  –, é como se estivéssemos perante a ambivalência entre a vontade de assumir uma estrutura e o desejo irreprimível de  (ao mesmo tempo)  a contestar.
 
Ainda em termos de composição, parece-me também sintomática da reflexão sobre uma modernidade não datada e intemporal a influência que julgo notar  (por exemplo em Grounding ou Evanescente)  de um compositor modelar, como é Wayne Shorter, sendo o modo pastoso e escorregadio de Ohad Talmor improvisar inteiramente adequado a este mundo conceptual.
                                                                                                                                       
Phil Grenadier, Demian Cabaud, Gerald Cleaver, Ohad Talmor, Leo Genovese
 
Mas este disco é também singular  (e feliz)  pelo que de «composição espontânea» existe no largo espaço deixado livre por Cabaud aos seus companheiros. Ohad Talmor –  já conhecido dos amadores de jazz portugueses  – não surpreende pela sua  invenção. Do mesmo modo, Gerald Cleaver e a sua capacidade de tomar iniciativa  (ouça-se Evanescente, por exemplo), vai sendo uma visita frequente dos nossos palcos em diversos contextos instrumentais. Mas Leo Genovese será, porventura, a revelação para muitos ouvidos, evidenciando qualidades brilhantes e demonstrando como a modernidade de um Jason Moran vai fazendo caminho. Quanto a Phil Grenadier, impressionaram-me menos as suas intervenções individuais, parecendo-me um músico muito mais feliz e assertivo quando se trata de interagir e replicar dentro do colectivo.    
 
Tornou-se hoje um hábito (que já assume traços de banalidade) a multiplicação de agradecimentos que os músicos fazem uns aos outros nos encartes dos CDs que lançam a público. Mas no caso de Naranja os agradecimentos de Demian Cabaud aos seus amigos e companheiros são particularmente justos                     (e justificados) já que, independentemente de uma firme ideia de liderança, inerente à personalidade de autor que o contrabaixista aqui deixa patente, este disco não seria o que é sem o contributo criativo dos seus pares.
 
Bem-haja a todos, portanto!
                                                                                                                       

 
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 18:54
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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

Dois cravos para Ivone

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   Ivone Dias Lourenço

          (1937 - 2008)

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            Bruce Springsteen com a Seeger Sessions Band
                                                     

 The Weavers (Lee Hays, Pete Seeger, Fred Hellerman, Ronnie Gilbert)
                        num excerto de Wasn’t That a Time?
                                               

 

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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

O jazz vai-se (re)fazendo todos os dias





Trio de Rabih Abou-Khalil-Joachim Kühn-Jarrod Cagwin
 
Culturgest (Lisboa)

Sábado, 19.01.08, 21:30, Grande Auditório

                                                                  






A subida ao palco, no passado sábado, do trio de Rabih Abou-Khalil (oud) Joachim Kühn (piano, sax-alto) e Jarrod Cagwin (bateria, percussão) –  naquele que foi o concerto inaugural do ciclo de jazz que anualmente integra a multidisciplinar programação artística e cultural da Culturgest (Lisboa)  – terá funcionado, ao mesmo tempo, como demonstração paradigmática de uma das múltiplas formas pelas quais o jazz de hoje se distingue radicalmente do jazz que se formou (ganhando personalidade e identidade próprias) nas suas primeiras décadas de vida.
 

Sendo certo que, logo desde os primórdios, o jazz emergiu de uma miscigenação de sangues e de culturas, nunca como hoje aquela identidade deixou transparecer tão claramente e de uma forma tão dinâmica as causas e os efeitos da progressiva contaminação e justaposição de identidades-outras que, em meio de relações culturais abertas e multipolares, foram transformando o jazz numa música do mundo e já não apenas fruto da sofrida e exaltante criação artística de um dado povo ou veículo de original e conjuntural afirmação cultural de um determinado país.

 

Neste sentido, sendo possível, natural e aceitável que no amplo ciclo de amadores de jazz em todo o mundo se desenvolvam e multipliquem argumentos e opiniões que favoreçam ou coloquem reservas a esta ou aquela direcção que o jazz tenha tomado ao longo de mais de um século, é absurdo sustentar ad eternum e urbi et orbi a inalterável manutenção dos mesmíssimos pressupostos estéticos da sua matriz, quanto à formulação temática, sustentação harmónica, configuração rítmica e até expressividade sonora, composicional e improvisativa.


Entre as várias formas de contaminação cultural que o jazz conheceu nas últimas décadas, o irreprimível fascínio pelos modos e/ou métricas polirítmicas, tão singulares nas culturas populares e eruditas hindus, balcânicas, mediterrânicas, hebraicas ou magrebinas, entre outras, tornou-se cada vez mais presente em determinadas correntes do jazz mais abertas à influência de outras músicas. Mas um fortíssimo elo  (embora não automaticamente generalizável)  que muito terá contribuído para esta aproximação de culturas, encontramo-lo na partilhada aventura da improvisação, essa forma suprema de nos integrarmos  (e ao mesmo nos afastarmos)  nos  (e dos)  fundamentos estruturais  (quando os há)  dos materiais temáticos de partida.
 

Para além da insólita apresentação dos vários músicos por parte de um Rabih Abou-Khalil sempre mordaz e pleno de humor, foi um pouco de tudo isto que esteve em palco no Grande Auditório da Culturgest, sobretudo nas polivalentes e multifacetadas ideias musicais que dois músicos mais claramente inseridos nas culturas do jazz  (Joachim Kühn e Jarrod Cagwin)  com frequência trocaram com o virtuoso Khalil, este assumindo (às vezes com pronunciada auto-satisfação) um impressionante tecnicismo que eu preferiria menos pleonástico e exibindo (outras vezes) o culto e a tentação de um «exotismo» que a espaços marcou em demasia este (já de si) invulgar triângulo instrumental e que terá desvirtuado um pouco, por exemplo, uma peça exigente como Blue Camel.

 

Apesar das reservas apontadas, o concerto resultou numa experiência em geral agradável e reconfortante, tendo ficado na memória do escriba momentos particularmente estimulantes, como a imparável agitação rítmica e crescendo emocional de Shrewd Woman, contrastando com o tranquilo recato de I’m Better Off Without You  (ambas do álbum Journey to the Center of an Egg, que os três músicos recentemente publicaram), uma extensa e imparável versão de White Widow  (não por acaso extraída do álbum Kalimba, que Joachin Kühn gravou com o marroquino Majid Bekkas e o valenciano Ramon Lopez), o transcendente solo absoluto do pianista para Ode to a Black Hole Singularity, o percussionismo arabizante de Jarrod Cagwin numa espécie de adufe circular ou, ainda, a deliciosa recriação colectiva de um clássico de Ornette Coleman, com Kühn a passar para o sax-alto.                                                                                                                                                               


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Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 17:41
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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Um concerto que ficou para a História

                                                                                                                                                                             

É já um lugar comum dizer-se que o jazz conheceu um momento de glória ao sair do gueto exclusivo dos clubes nocturnos e das salas de dança para ver-se consagrado no mundo da chamada Grande Música e das salas de concerto, ao subir pela primeira vez ao palco de uma das suas catedrais -   o Carnegie Hall de Nova Iorque - na histórica noite de 16 de Janeiro de 1938, passam hoje precisamente 70 anos ! Entretanto, muito mais do que esta evidente e merecida consagração -  hoje só posta em causa pelos mais empedernidos e obtusos espíritos sectários  - o que nessa noite se passou em palco vale pelo que, na verdade, representou em termos musicais mas também sociais.

 
É preciso dizer-se que, para além do trio, quarteto e grande orquestra de Benny Goodman -  que marcaram claramente a noite  - passou pelo Carnegie Hall muita da nata dos músicos de jazz desse tempo, como a orquestra de Count Basie que tinha nas suas fileiras nomes tão importantes como Lester Young ou Buck Clayton e, ainda, outros músicos decisivos, como os ellingtoneanos Harry Carney, Cootie Williams ou Johnny Hodges, isto sem falar na presença de Teddy Wilson ou Lionel Hampton nos grupos do próprio Benny Goodman, numa flagrante demonstração de integração racial de que um dos pioneiros foi, precisamente, o grande clarinetista.
 
Foi em 1999 que a Columbia procedeu à publicação de uma reedição essencial: numa caixa de 2 CDs, era apresentada pela primeira vez a totalidade da música gravada nesse histórico concerto, restaurada e remasterizada a partir de acetatos cujo paradeiro era há muito desconhecido, amplamente anotada por Phil Schaap e incluindo cinco peças nunca antes editadas.
 
Ignoro se ainda haverá por aí, escondidos em algumas prateleiras das nossas discotecas, exemplares preciosos desse famoso concerto de 1938. Mas vale a pena procurar!
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Nota: largos excertos do texto deste post pertencem à apresentação (29.01.01) da faixa Sing Sing Sing, pela orquestra de Benny Goodman, incluída na série de espécimes musicais que fez parte do ciclo O Século do Jazz, transmitido durante todo o ano de 2001 no programa Um Toque de Jazz, da Antena 2.
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Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 14:05
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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

Ciclo de Jazz da Casa da Música abre com André Fernandes

 

      Fotos: cortesia Casa da Música e © João Messias
                                                                            

                                                                                                                                

Se eu fosse um telejornal, claro que escolheria começar esta crónica por vos relatar os «azares» -  ou, como os telejornais preferem, as «desgraças»  - que aconteceram a meio do concerto realizado pelo quarteto de André Fernandes, na passada quinta-feira 10, na Sala 2 da Casa da Música (Porto).
 
De facto, imaginem que um Fender Rhodes se avariava e uma guitarra acústica «dava o berro», precisamente no início de uma peça na qual estava previsto que Mário Laginha passasse do piano acústico para o eléctrico, enquanto André Fernandes trocaria a guitarra eléctrica pela acústica!!!
 
Pois foi mesmo isso que aconteceu! Mas como não sou um telejornal, interessa-me mais falar-vos, mesmo, do muito que de bom aconteceu no dito concerto. Baseando, como é natural, o seu alinhamento musical no repertório do mais recente disco que publicou sob o título Cubo, André Fernandes voltou a revelar um invulgar talento de compositor –  muito embora estas coisas lhe saiam, cada vez mais, com o ar natural de que nada de particularmente trabalhado nasce do seu investimento composicional  – e um muito imaginativo perfil de improvisador, transmitindo às variações um desenvolvimento que, por um lado, parece brotar ao sabor da emoção e da espontaneidade e, em outros momentos, só pode resultar da racional congeminação e articulação a que o guitarrista submete, passo a passo, as ideias musicais inerentes às várias peças.
 
Numa actuação pautada por um gradual crescendo de intensidade e entrega por parte dos músicos  (todos os músicos)  à arte de inventar em tempo real discursos individuais que vão reflectindo de forma dinâmica as correlações, coincidências ou desvios colectivos, André Fernandes esteve particularmente brilhante em todas as viragens de uma exigente peça como Sal, naquela que é uma muito pessoal e imparável associação de fragmentos de escalas e arpejamentos sempre lógicos e fluentes, fossem quais fossem  (e seguindo-as de perto)  as incidências e os impulsos, a nível harmónico e rítmico, por parte de Mário Laginha e Alexandre Frazão.
 
Também em Panda Fight  –  peça que substituiu, no alinhamento previsto, Dog Speak, passando esta para encore do concerto  –, a forma fluente como o guitarrista encadeou, no seu solo, o seccionamento dos saltos de intervalos afastados com os intensos cromatismos de longas frases, foi paradigmática de uma maturidade crescente. Mas a esta maturidade somar-se-ia, ainda, a inteligente capacidade de transfiguração  (assumida com naturalidade pelos restantes membros do quarteto)  na imperceptível mudança de personalidade forçosamente adquirida por algumas peças do repertório –  Perto, Not the Vibe, Vizz  – as quais, em virtude das ocorrências técnicas já citadas, passaram por câmbios instrumentais não negligenciáveis, do acústico para o electrónico e vice-versa.                                                                                                                                                      
 
Por exemplo, em Trinta Dias, a construção do solo no meia-cauda de Mário Laginha  (por comparação com o que se conhecia do original do disco, em Fender Rhodes)  foi realizada de forma relativamente diferente, partindo de uma nota pedal cuja obsessão e insistência foi acompanhada de uma justaposição de acordes progressivamente mais amplos e incisivos, arrastando atrás de si o restante grupo, em particular Alexandre Frazão, na permanente desmultiplicação dos padrões e das métricas rítmicas, e ainda Nelson Cascais, um elemento determinante e essencial à atmosfera geral do quarteto  (quer no contrabaixo acústico quer no baixo eléctrico, nele menos habitual)  pela insistência, quase convulsiva, na região grave do instrumento, que ele faz soar como ninguém.
                               
 
De facto e para além do papel fulcral de André Fernandes enquanto autor e solista que tudo dinamiza à sua volta, a permanente e lúcida entrega de Mário Laginha à música que nos propõe e a transbordante emoção e imaginação através da qual lhe imprime uma insubstituível dose de criatividade, ajudam a caracterizar este quarteto como um dos mais entusiasmantes grupos de 2007, neste cada vez mais movimentado e rico panorama do jazz português.
 
Já a participação, na canção Foi-se Embora, desse insólito andarilho que é Tiago Maia, saiu desta vez algo prejudicada, já que uma certa saturação na captação de som  (em tudo o resto exemplar)  terá tornado menos clara a voz e a dicção e, portanto, o discernimento de uma letra que é um modelo do «deixar andar»…
 
E foi desta forma auspiciosa que teve início –  com a participação  (sublinhe-se)  de um grupo português  – o excelente ciclo de jazz da Casa da Música para 2008 que ainda reserva, ao longo do ano, muitas e agradáveis confirmações e surpresas aos amadores de jazz do norte do país e dos viajantes que ali se desloquem.
                                                              

Quarteto de André Fernandes
Casa da Música - Ciclo de Jazz 2008
Quinta-feira 10, 22:00, Sala 2
                                                                                     
André Fernandes (guitarra)
Mário Laginha (piano)
Nelson Cascais (contrabaixo, baixo eléctrico)
Alexandre Frazão (bateria)


Nota de MJV - como quase sempre acontece na Internet, a compressão (não controlável) a que são sujeitas as fotos para publicação online pode ser de tal maneira radical que existe o risco de degradar a qualidade dos originais. Foi o que em parte aconteceu (e se lamenta) com as fotos gentilmente cedidas pelo fotógrafo João Messias.
                                                                                                                   

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:48
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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Achados no baú (5)

 

Foi em Novembro de 1968 -  prefazem-se este ano 40 anos  - que passaram pela primeira vez para os estúdios, depois de uma gestação preparatória de um ano, os trabalhos verdadeiramente ciclópicos  (e que durariam até Junho de 1971)  da gravação de uma obra verdadeiramente invulgar em todo o jazz.

Escalator Over the Hill se chamou essa obra e na sua origem esteve a grande pianista, compositora e chefe de orquestra Carla Bley, nela participando ainda alguns dos músicos em destaque nessa época, para além de artistas de outras áreas que acompanharam a compositora no difícil parto de uma obra que, com todas as suas contradições, ouvida hoje, mantém o espírito de irreverência e transversalidade estética e cultural que sempre foi sua intenção primeira.

Há precisamente uma década, alinhavava este escriba para o DNMais, então suplemento musical do Diário de Notícias, o texto em que se destacava o surgimento da reedição de Escalator Over the Hill e que há dias fui achar, entre outras velharias, no meu baú.

Pensei que poderiam gostar de o conhecer ou reler. Ele aí está.

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As aventuras da bela Carla (1)

                                                       

Fruto de um aturado trabalho de criação individual e da expressão aleatória da invenção colectiva, Escalator Over The Hill constitui, ainda hoje, na sua grandiosidade e nas suas fraquezas, uma das obras mais ambiciosas e complexas no domínio do jazz.
 
Tudo começou em Janeiro de 67 quando o poeta Paul Haines, amigo pessoal de Carla Bley, lhe confiou o esboço de um surreal e impenetrável libreto, desafiando-a à composição de uma ópera. Nada melhor se adequaria à compositora, desde sempre ansiando alargar a sua criatividade muito para além das fronteiras estritas do jazz, através de uma série de experiências em vários campos que, no decorrer da sua movimentada carreira, tocariam a música para o teatro e cinema de vanguarda, a canção de texto, a própria música de câmara e, no domínio específico da música popular, certas formas e direcções mais avançadas do rock e da pop.
 
Além disso Carla era, desde a primeira hora, participante activa do movimento de renovação e reformulação do jazz que, na segunda metade dos anos 60, em plena efervescência do free-jazz, conhecera um ímpeto decisivo com a criação, por exemplo, da Jazz Composer’ s Orchestra –  que reunia no seu seio músicos tão importantes como Roswell Rudd, Charlie Haden, Don Cherry, Howard Johnson, Paul Motian, Perry Robinson, Dewey Redman, Gato Barbieri e tantos outros  – ou membro influente da Liberation Music Orchestra, esta dirigida por Charlie Haden.
 
Não admira, assim, que muitos dos músicos participantes desta longa obra de Carla Bley fossem oriundos das estantes destes dois relevantes colectivos. Mas as próprias paixões musicais da pianista e compositora, as muito diversificadas ligações aos meios artísticos da época, a par das inúmeras contrariedades, mudanças de rumo e outras incidências laterais que marcaram de forma significativa o trabalho criativo de Escalator Over The Hill, ajudam a explicar ainda algumas das presenças que, em diversas funções  (designadamente no campo vocal), podemos surpreender na «ficha técnica» que acompanha a obra.
 
Carla recusara sempre a hipótese de contar com a participação de cantores com os tiques da formação académica e, por isso, a par de uma única cantora lírica assumida (Rosalind Hupp), para um papel específico, as vontades e os acasos puseram-lhe à disposição as vozes de Jack Bruce (Cream), com uma notável intervenção, mas ainda as de Don Preston (Mothers of Invention), Linda Ronstadt ou Jeanne Lee, do actor-cantor britânico Paul Jones, para já não falar da participação nas partes corais do fotógrafo Tod Papageorge, dos tubistas Bob Stewart e Howard Johnson ou do contrabaixista Charlie Haden, da transformação do cineasta Michael Snow em... trompetista e da intervenção de Viva, super-star de Andy Wahrol, como narradora!
 
Sempre lutando contra a falta de fundos para a realização de uma obra tão exigente, contando em dezenas e dezenas de horas de trabalho voluntário com a colaboração desinteressada de muitos dos músicos envolvidos, Carla Bley teve de se sujeitar, durante os três longos
anos que ocupou o trabalho de gravação e pós-produção, às mais diversas condições técnicas: desde o amplo e sofisticado estúdio da RCA, apetrechado com máquinas de 16 pistas e possibilitando as complexas misturas finais, até à utilização de simples gravadores portáteis (!), passando pelas instalações  (para o efeito precárias)  da Cinemateca de Jonas Mekas ou do Public Theater de Nova Iorque, dirigido pelos seus amigos Joseph Papp e Bernard Gersten.
 
Não admira, assim, que as próprias condições materiais da produção e criação artística se reflictam no desigual resultado final, tocado pela qualidade superlativa de momentos-chave como Hotel Overture, Escalator Over The Hill  (propriamente dito), EOTH Theme, Off Premises ou Smalltown Agonist, pela (ainda)  ingenuidade «modernaça» da utilização primária de um piano preparado ou de um sintetizador, não deixando de ser sujeito à inevitabilidade dos ruídos de uma carruagem de metro...
 
Pelo meio, ficam ainda a marcar esta obra singular os dispersos mas inegáveis reflexos de Brecht, Mingus ou Rota na personalidade musical de Carla Bley, a par da influência dos movimentos de vanguarda em geral, expressão no campo artístico de outros interesses e paixões: as lutas contemporâneas pelos direitos cívicos dos afro-americanos, os gritos de revolta da América Latina ou a intervenção contestatária da intelectualidade universitária.
 
Enfim, a aventura de Escalator Over The Hill é bem o fruto de uma época bela e exaltante: o tempo de todas as esperanças e de todos os excessos.
                 

(1)  in DNMais nº. 29, de 10.10.98

  
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 23:31
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